Pular para o conteúdo
FIT — Festival Internacional de Teatro
Tudo, Menos Uma Crítica · @tudomenosumacritica · 19 Jul 2026

É difícil começar

Por Fernando Pivotto

Fernando Pivotto

Por Fernando Pivotto

um

É domingo, 19 de julho, quando escrevo este texto. A nossa tentativa - minha, e das parcerias amilton de azevedo e Fredda Amorim - é de compartilhar aquilo que vem nos atravessado no FIT. No meu caso, não pretendo falar dos espetáculos em si, mas daquilo que eu dei conta de ver, ouvir, elaborar e sentir a partir deles/através deles. E, principalmente, com eles. A ideia é que estes meus textos sejam sobre o tecido conjuntivo que eu percebo entre todos os trabalhos, refletindo sobre as perguntas que eles me fazem e as que eu faço de volta.

É quase como uma brincadeira de ler a borra do café, ou de ver os formatos das nuvens no céu: diz muito sobre a capacidade do observador de olhar; e sobre a compreensão de que os formatos e delineados que vejo pertencem à coisa que eu observo, mas não são a coisa em si. Quem observar a mesma nuvem que eu verá outros desenhos; quem ler a mesma borra poderá ver outros futuros.

Assim, este texto que escrevo agora é tanto um compartilhamento das linhas que eu enxerguei quanto um convite a você que me lê agora, que viu as peças do FIT ou que verá nos próximos dias.

Veja quais perguntas que eu faço para/sobre/com estes espetáculos podem ser feitas para outras obras. Veja quais perguntas este texto te inspira, e quais perguntas as obras que você for assistir te inspiram. Veja se é possível fazer a mesma pergunta para duas obras diferentes e obter a mesma resposta, ou respostas completamente diferentes, ou respostas complementares. Ou resposta nenhuma.

Veja o que as perguntas que você faz revelam sobre a obra que você assiste e, principalmente, sobre você. Veja, na sua própria curadoria do FIT, o que se revela sobre a curadoria do Festival e sobre as obras que você assiste (ver Z na sequência do espetáculo X, ou antes do Y talvez acrescente contexto, informação e subjetividade à obra de maneira que vê-la depois de Y e antes de X não o faça).

Frequente o Festival. Compartilhe perguntas com as pessoas com quem você frequenta o FIT. Aqui, compartilho algumas das perguntas que andam comigo desde a abertura, no dia 16; talvez eu as responda ou acrescente novas perguntas nos próximos textos, talvez eu as pergunte em voz alta nos próximos Botecos Críticos (dias 23 e 25, na programação do Rolê). Vou adorar ouvir as suas. Mas, quanto a este texto, é preciso começar.

dois

É difícil começar.

Essa frase aparece algumas vezes em Boi Material, da Cênica, e eu concordo com ela. Começar significa romper a inércia, pôr em movimento, fazer haver algo que antes não havia.

Em seu livro A Preparação do Diretor, Anne Bogart elenca sete conceitos com os quais trabalha na criação artística: memória, terror, erotismo, estereótipo, timidez, resistência e violência.

A violência, diz ela, é a força motriz a partir da qual se faz algo. É preciso ser violento ao decidir colocar uma cadeira no centro do palco porque esta decisão é uma inauguração no fluxo do tempo: coloca algo onde antes não havia nada e, nesta inauguração, muda não só o palco mas o mundo ao seu redor. Ser violento é cortar o fluxo do tempo e, por este corte, começar um fluxo novo. Talvez seja por isso que é difícil começar - começar algo pode significar começar um novo mundo no embalo.

Boi Material. Crédito: Victor Natureza
Boi Material. Crédito: Victor Natureza

O que a Cênica propõe, em Boi Material, é um olhar para a crise dos fazedores de teatro diante do capitalismo tardio. O que podem artistas e arte diante dos grandes empresários, em seus escritórios do último andar de prédios de concreto, vidro e ferro, imponentes como titãs? Como pode a arte propor um mundo novo, fora da máquina moedora de gente, de bicho, de árvore, de subjetividade quando a arte é, também, mercadoria?

O palco da Cênica é ora feira de exposição, ora exposição de arte, porque talvez os limites entre estes territórios estejam borrados: tudo parece estar em exposição para leilão - mercadorias mais ou menos caras, mas ainda assim objetos que devem cumprir sua função, seja ela dar lucro ou entreter.

Se do boi se aproveita tudo, o que se aproveita dos artistas? Num país em que até um touro é celebridade, estrela novelas e tudo o mais, o que podem os fazedores de teatro? Quem consegue mobilizar mais os imaginários: o touro que aparece no principal produto cultural do país (ou, pelo menos, o de maior alcance) ou o grupo de teatro que se apresenta em um dos principais festivais do país? E essas perguntas - quem é melhor? quem pode mais? quem tem mais alcance? - não são essencialmente capitalistas? É possível fazer perguntas que não sejam essencialmente capitalistas ou, de fato, nossa própria capacidade de questionar já foi sequestrada pela lógica do capital?

É difícil começar, eles dizem antes de começar uma cena nova, e não é à toa que seja difícil. Começar como? Começar pra quem? Começar com quem? O que começará na contramão desse nosso começo - pois sempre que andamos, deslocamos não só nós, mas nossa sombra - ? Quem dará mais por aquilo que começamos: quem dará mais sangue, quem dará mais no couro, quem dará o maior lance?

As respostas a algumas dessas perguntas me chegam através dos macacões de dupla face criados por Fabiano Amigucci. De um lado, brancos, assépticos, remetem aos açougueiros que lidam com a carne morta nos frigoríficos - não há vida que possa surgir desta brancura esterilizada; apenas a morte, impessoal, fria, distanciada, pode ser manipulada de modo tão preciso, sem sujeira ou rastro.

Do avesso, os macacões têm uma cor bordô com rajados brancos, remetendo à carne que temos no nosso interior (do país e de nós mesmos). É tanto um memento mori contemporâneo (vamos todos morrer e nossas vidas não valem nada) quanto um memento viveri (ainda estamos vivos, ainda somos músculo e sensibilidade, e talvez viver esta sensibilidade seja um jeito de não sermos objetificados no leilão voraz).

Por se tratar de um teatro de grupo, talvez o memento viveri coletivo seja o começo de um tateio de uma resposta: viver em grupo possa ajudar a ficar mais de 8 segundos de pé na luta contra o Charging Bull de Wall Street.

três

Não um touro, mas o dono de um estacionamento avançou em mim no centro da cidade. Eu estava bem ali, na entrada da garagem, parado e olhando a cidade porque um áudio guia me mandou. Que que é isso aqui?, perguntou ele, raivoso (não sem razão) com a fila de pessoas com envelopes nas mãos e fones nos ouvidos que ameaçava atrapalhar o fluxo de clientes.

Estou Bem Aqui e Lembrei de Você, audiotour do Em Bando Coletivo é um dispositivo de ativação da cidade. As reminiscências de neta que segue os passos da avó são o disparador pra que o ouvinte percorra alguns quarteirões da cidade com o olhar de quem é familiar com aquele trajeto e, ao mesmo tempo, o nota pela primeira vez.

Estou Bem Aqui e Lembrei de Você. Crédito: Milena Aurea
Estou Bem Aqui e Lembrei de Você. Crédito: Milena Aurea

Exercícios simples como andar lentamente pela calçada, ou emoldurar certos ângulos da paisagem mobilizam a experiência de estar na cidade de jeitos pouco usuais e, a partir deste estranhamento, estranhar o que antes parecia natural.

Por que parece estranho andar devagar? Por que parece estranho andar a esmo? O que eu, que nunca vim a São José do Rio Preto antes vejo que os moradores da cidade não vêem? O que eles veem que eu nunca conseguirei ver? Como a vida na cidade molda nossos corpos? Podem nossos corpos moldar a cidade?

O Efeito do Observador diz que o simples ato de observar algo já altera o seu comportamento. Isso, grosso modo, significa duas coisas simultaneamente: olhar influencia aquilo que é olhado e olhar influencia aquele que olha.

Eu vejo a cidade de um modo sensível porque o áudio guia me convida a isso e, ao olhá-la deste novo jeito ela se transforma, mesmo que levemente. Se transforma porque eu a vejo assim e porque ela me vê de volta: eu sou tão ouvinte do audiotour quanto sou seu performer, e é minha postura pela cidade que causa estranhamento às pessoas que veem, espantadas, um bando de pessoas de fone de ouvindo atrapalhando o fluxo da cidade.

Este bando de pessoas vendo postais e mapas desenhados à mão é completamente inútil ao centro da cidade: não vai fazer o cartão da loja pra ter 10% de desconto na primeira compra, não vai pedir o CPF na nota, não vai comprar um cone de salgados e vai atrapalhar a entrada do carro no estacionamento que cobra R$ 15,00 as duas primeiras horas. Essa inutilidade é boa porque nos lembra que a cidade em que moramos nem sempre é um lar. Nos lembra que as ruas deveriam não ser só vias de passagem (geralmente, rumo ao comércio ou ao trabalho e de volta à casa), mas locais de permanência, de encontro, de deriva e fruição.

Proncovô. Crédito: Vivian Gradela
Proncovô. Crédito: Vivian Gradela

O caminho se faz ao caminhar, e o caminhar faz o caminhador, diz a Cia Proncovô em seu show homônimo. Assim como Estou Bem Aqui…, Proncovô faz do caminhar material poético. Andar pra frente, em linha reta, em desvios, que atrás vem gente, atrás de muita gente, ao lado de muita gente são diretrizes que valem para ambos os trabalhos, que falam do deslocar-se pelo tempo, pelo espaço e pelos afetos a partir do ato de apoiar-se num pé e impulsionar-se com o outro.

Ambos os trabalhos me fazem lembrar de Fernando Birri: A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

quatro

Se começar é difícil, o que dizer de continuar? Em Cena Ouro - Epide(r)mia , que a Cia Mungunzá estreou em 2023 e apresentou no FIT nesta sexta e sábado, a matéria poética do espetáculo é a própria caminhada do grupo.

Não digo isso porque é um trabalho ensimesmado - não é. Digo porque, em 2026, o trabalho olha, ao mesmo tempo, para trás (aprofunda a reflexão de Epidemia Prata, de 2018, sobre sua relação com o entorno; celebra os colegas de jornada; atesta a importância social, política e poética do Teatro de Contêiner) e para frente (o Teatro de Contêiner será reerguido, dizem logo no começo), fincando assim os dois pés no presente (a revolta, a garra, o luto, a poesia).

Cena Ouro - Epide(R)mia. Crédito: Paulo Moura
Cena Ouro - Epide(R)mia. Crédito: Paulo Moura

Neste sentido, a Cena Ouro apresentada no FIT é um nexo temporal em que passado, presente e futuro se energizam mutuamente. É impossível não se emocionar ao ver as filmagens do terreno do Contêiner, não só porque é triste saber que ele foi demolido, mas porque é importante saber que, simbolicamente, ele continua existindo e reverberando. É triste e revoltante ouvir sobre Dentinho, mas é poderoso ver o alcance e a potência de sua vida atestados o tempo todo, em cada cena, neste espetáculo.

Cena Ouro é terrivelmente agridoce, ao ponto de eu quase não conseguir fazer o Boteco Crítico na sequência. A cena em que Lucas rememora quantas vezes ele aconselhou pessoas a aceitarem as ajudas dos serviços sociais, ou buscarem as UPAs, só para constatar que nada adiantou é devastadora. Fiquei me perguntando pra que serve o teatro, o teatro de grupo, os festivais de teatro, a crítica de teatro e os botecos críticos comparados à dureza, à crueza, à violência da vida real. Por que a gente faz o que a gente faz? Pra quem a gente faz o que a gente faz?

Por que você está lendo este texto agora? Por que vir ao FIT?

Claro, são perguntas das quais eu sei as respostas (ainda que volta e meia eu precise me lembrar delas). E imagino que você também saiba. Mas acho que talvez valha à pena você se perguntar elas, com calma e honestidade, nestes próximos dias do FIT. Não na tentativa de achar uma resposta objetiva, material, definitiva, mas na possibilidade de dialogar com as obras e a cidade a partir destas indagações.

Na mesa de discussão Curadoria FIT 2026: Um Olhar Horizontal, muito falou-se sobre a necessidade de desassossegar o público. Cabe a um festival oferecer tanto oportunidades de deslumbramento e encantamento quanto oportunidades de espanto e desassossego. Cena Ouro é a obra que mais me desassossegou até agora, com seu contraste entre as imagens lindas e as falas devastadoras. O espetáculo me parece poderoso porque, em um só golpe, nos alerta que a vida é, para o bem e para o mal, maior que o teatro e, ao mesmo tempo, de que tem coisas na vida que só o teatro dá conta de organizar.

Há muita pulsão de vida em Cena Ouro (e arrisco dizer que ela vai desembocar em Elã, o trabalho seguinte da companhia, mas isso é papo pra outra hora), orientada a partir da revolta, da luta e da necessidade de seguir adiante. É como um tipo de alquimia, transformar tudo isso em uma poesia lúcida e desassossegadora - o caminho e o caminhante se fazendo mutuamente.

Nisso, lembro da música final de {FÉ}STA. Só de revolta, vou ser feliz, canta o Coletivo Prot{agô}nistas, acompanhado pelo coro da plateia.

{FÉ}STA é todo exuberância, um elogio à técnica, à poesia e à sensibilidade. A festa que eles estabelecem surge desta mesma alquimia que a Mungunzá opera: como um espaço de elaboração sensível, reinvindicação de memória e construção de futuro. Uma festa que atesta que eles estão vivos (na máxima acepção da palavra) e que viver é estar inscrito na eternidade.

{FÉ}STA. Crédito: Milena Áurea
{FÉ}STA. Crédito: Milena Áurea

Diz a sinopse de {FÉ}STA que “o palco-picadeiro pulsa como uma festa, evocando a espiritualidade, a coletividade e o renascimento constante que marcam o caminhar da população preta”. Não só é um jeito bom de abrir um festival (e a caminhada que um festival propõe), como é bonito ver como a metáfora do caminhar encontrará ecos nos próximos dias da programação.

cinco

Chego aos parágrafos finais deste texto ainda sem ter resolvido a crise na qual Cena Ouro me lançou (pra quê teatro? pra quê poesia? pra quê esse próprio texto?), mas habitando-a mesmo assim, esperando para ver como e de qual modo o sossego retornará a mim. Não deixa de ser um estado interessante para se habitar os próximos dias de festival.

Alie e as Estrelas. Crédito: Victor Natureza
Alie e as Estrelas. Crédito: Victor Natureza

Encontrei um punhado de poesia espalhado por aqui e por ali. Uma delas é Alie e as Estrelas, o lindo trabalho do Teatro Máquina, baseado no livro O Plano Secreto de Alie, de Bárbara Cabeça, Lux Farr e Noá Bonoba.

O teatro de formas animadas sempre me encanta pela sua capacidade de exercitar nossa imaginação com efeitos muito simples, ou com efeitos tão sofisticados que parecem simples. É o caso de Alie, que Ana Luiza Rios, Fabiano Veríssimo e Levy Mota realizam com tanta tranquilidade que até parece que é fácil - o que atesta como eles mandam bem.

Me perguntei, ao longo da sessão do dia 19, se estava tão mexido com Alie porque ainda estava na rebordosa de Cena Ouro mas não era o caso. À medida que as crianças ao meu redor reagiam à fábula do pequeno menino que apanhou as estrelas para si, fui me lembrando dessa habilidade que os festivais têm, de nos assombrar e nos encantar, exercitando nossa sensibilidade ao longo de sua programação.

Como numa caminhada, um passo depois do anterior, uma peça mobilizando a próxima.

[[ Vou adorar ouvir de você como está sendo sua jornada no FIT. Se quiser conversar, escreva para @tudomenosumacritica ou venha a um dos próximos Botecos Críticos - dias 23 e 25, a partir das 22h30. Caminhar é ainda mais legal em bando, afinal. ]]

Fernando Pivotto é artista da cena, educador e crítico. É membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro e pesquisa formas performativas e relacionais de crítica. Em 2017 criou o perfil Tudo, Menos Uma Crítica, em que testa formatos de escrita reflexiva. Participou de projetos como Crítica Isolada (2021, Sesc Pinheiros), Ponto de Encontro (2023 - 24, Secretaria Municipal de Cultura de SP) e participa do Boteco Crítico (2024 em diante) junto com seus parceiros de Projeto Arquipélago. Desde 2024 conduz a residência para espectadores Estufa, da produtora Corpo Rastreado.