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FIT — Festival Internacional de Teatro
ruína acesa · Cobertura FIT 2026 · 25 Jul 2026

criar é criança

sobre o que fazemos para as infâncias e o que trazemos da infância: a programação do FIT e as obras para todas as idades.

amilton de azevedo

Por amilton de azevedo

foto: Victor Natureza
foto: Victor Natureza

Os olhares para as infâncias, as idades da infância. Ontem à noite, ganhei de um atuante de Speedball (Núcleo Arcênico de Criações, São José do Rio Preto/SP) um pequeno caminhão de bombeiros, com uma escada que se movia. Eu gosto de gruas, de guindastes, e achei auspicioso ter recebido bem este brinquedo entre os tantos que se acumulavam em seus braços. Também achei chato ter que devolver; no final, ele pediu de volta, e agradeceu o seu filho por ter emprestado tudo aquilo que se fez objeto cênico. É brinquedo, é brincadeira, é teatro.

No Boteco Crítico da quinta-feira (23) – que vou citar sem nomear as pessoas que disseram as coisas porque eu não anotei o nome delas, então peço desculpas de antemão – a gente estava falando de Inexinstante (escrevi um pouco sobre a obra no meu texto anterior, esse espaço feito tempo) e aí trocamos em torno do que é dança, do que é coreografia, e como isso está associado à intencionalidade do que se faz. Hoje, se algo se afirma dança, é dança? O que queremos das coisas quando fazemos as coisas e dizemos que as coisas são essas coisas? Como nomeamos as coisas para que elas estejam mais alinhadas com as nossas intenções para as coisas?

Há algum tempo falamos teatro para as infâncias ao invés de teatro infantil. Talvez porque infantil seja tão utilizada de forma pejorativa, primitiva; o que é muito louco, porque agir de forma infantil deveria ser profundamente incrível. Não tem nada mais legal do que criança. Tem uma música da Tuyo, do álbum Quem eu quero ser, que eu gosto muito que fala assim: “Quando te falarem que seu jeito é de criança, pode ficar felizé possível que tenham te confundido comigo: amorosa, toda natural, verdadeira; corajosa, forte e sincera”.

A sinceridade das infâncias é uma atração à parte quando estamos diante de um espetáculo feito pra elas. Pude acompanhar a apresentação de Bicho Alumbroso nas Entranhas do Encanto ao lado de crianças maravilhosas, entre o assombro e o encanto, querendo interagir mas também fugir. Quando surgiu mais um dos bonecos assustadores, ouço um menino dizer para o outro que “nossa, eu vou me cagar de medo!”. Eles adoraram. Mais adiante, uma menina que entrou para ajudar numa captura, ao ser perseguida por outro dos bonecos, correu de volta para o colo da mãe. É muito bonito pensar o tanto que se pode causar de impacto com uma obra para as infâncias – e é importante expandir esse campo de possíveis; são muitas as funções do teatro, são muitas as intenções de artistas.

Conforme foi dito na mesa Teatro para as Infâncias do Século XXI, uma em cada quatro inscrições para esta edição do festival foi deste delicioso tipo de trabalho. Antes, na mesa Curadoria FIT 2026: Um olhar horizontal, Fredda Amorim, parceira de Boteco Crítico e da escrita crítica, comentou sobre esse lugar que se dá entre a composição de uma dramaturgia da curadoria e um pensamento de formação de público diante da seleção, da programação como um todo, das escolhas e das possibilidades.

Viagem a Marte. foto: Ricardo Boni
Viagem a Marte. foto: Ricardo Boni

E então, vemos um FIT que reflete essas perspectivas, com treze espetáculos para todos os públicos – e é interessante quando se torna difícil distinguir se a classificação livre significa que a obra é pensada para ser voltada para as infâncias ou não, considerando a linguagem pesquisada, os temas abordados, os desejos das pessoas e coletividades criadoras. Somam-se também dezessete das vinte caixas da MIT Lambe-Lambe que puderam ser vistas pelas pequenas pessoinhas (e é legal pensar nessa inversão e lembrar que o teatro de formas animadas também pode ser voltado ao público adulto!).

Das caixas que pude ver, penso em duas que já podem levar essa reflexão para os lugares mais diversos do que pode (ou do que quer) uma obra que fala para as infâncias: o espaço sideral e o fundo do mar. Viagem a Marte, do Grupo Teatro do Imprevisto (São José dos Campos/SP), traz uma inesperada aparição de vida em outros planetas para substituir a solidão galáctica por uma companhia de viagem, construindo uma narrativa visual de forma linear, enquanto Kika, da Escena Cuantica (Chile), voltada para a primeira infância, é um mergulho e um voo sensorial de uma menina por entre animais, ecossistemas, sonhos e a imaginação. Há tantos meios de se produzir sentidos em artes; porque no teatro para as infâncias seria diferente? É possível querer contar uma história, é possível querer gerar sensações, é possível trazer um discurso direto, é possível ser sutil, é muito possível.

Criar é criança, coisa cheia de curiosidades, feita toda de perguntas.

Então se fazem de dúvidas artistas e públicos, e são muitos os modos de buscar respostas – inclusive, manter o não-saber. Na minha frente em À Beira do Sol, uma mãe lia a sinopse para o filho com o espetáculo já começado, talvez para elucidar alguma questão; depois, ela passou a peça toda fazendo vídeos, tirando fotos. Também são muitos os modos de criar memórias (e, talvez, as melhores delas não fiquem registradas no armazenamento de smartphones). O trabalho dOs Buriti (Brasília/DF) se faz a partir de uma história doida, como ela própria se anuncia, e composições imagéticas impressionam enquanto a narrativa exige um grau de atenção e também convida a uma navegação um pouco desprendida, flutuando entre metáforas, abstrações e entendimentos. É para as infâncias, encanta os adultos e demanda a caixa preta, o silêncio, a concentração.

Alguns dias depois, estamos no Núcleo Alvorada e não param de surgir crianças pequenas para lotar o espaço. Entre Causos e Lendas e O segredo do Rei são duas histórias que serão contadas para um mar de 500 pessoinhas. Aliás, quando a numerosa plateia se torna o oceano, é difícil fazê-las soltar! Ainda assim, o Grupo MONO & o Agrupamento de Artistas (São José do Rio Preto/SP), mantém a tranquilidade e a condução de suas narrativas. Logo no início de Entre Causos e Lendas, um dos personagens diz que para a pesca que virá a seguir é necessário silêncio. E assim se fez. Por poucos instantes, sim, mas a brevidade foi muito mais pela sequência da contação do que por um agito das crianças.

Durante a mesa voltada ao teatro para as infâncias, Fernanda Vianna, do Grupo Galpão (Belo Horizonte/MG) e com experiência na criação para estes públicos, compartilhou a fala de uma amiga, professora, que dizia que “quanto mais baixo eu falo, mais eu tenho silêncio”, o que faz pensar sobre os modos de começar, os modos de conduzir, os modos de convidar às atenções da plateia – em especial nas ocasiões onde se recebem turmas e turmas de escola, com a mediação de poucas professoras (onde o comportamento é bem distinto do que quando cada uma ou duas crianças está acompanhadas por familiares).

Entre Causos e Lendas. foto: Victor Natureza
Entre Causos e Lendas. foto: Victor Natureza

Assim, o MONO e o Agrupamento não tiveram dificuldades no contar para além de um desejo grande de participação e interação. Entre Causos e Lendas traz figuras do folclore brasileiro para conscientizar as crianças em torno da lida com o meio ambiente. Toda sua narrativa é organizada com esse objetivo de forma direta; os usos das encantarias, porém, oscila entre o que faz sentido dentro da lógica proposta e o que se mostra menos crível. Um Boitatá confundido com a poluição, feito monstro-de-lixo, é interessante – e ele ser evocado como um grande saco preto é ao mesmo tempo um ruído e um diálogo com a temática – mas ao Lobisomem falta uma construção de sentido para fazê-lo catador de latinha; soa como uma forçação de barra.

O Segredo do Rei traz a questão do respeito ao outro para o centro da cena. É um clássico do teatro infantil: um protagonista punido por ter sido mau e a punição ser desfeita diante do arrependimento. Aqui, é o bullying com a aparência o primeiro disparador; depois, a fofoca também entra como algo que não deve ser feito de forma maliciosa. É pedagógico, simples, possivelmente efetivo. Não se pretende complexificar questões sobre autoritarismo e punitivismo, por exemplo, e está tudo bem: para a criança, a mensagem é comunicada.

O CEU das Artes recebeu O Sonho de Ícaro, da Cia. Alpendre (São José do Rio Preto/SP), em meio à ventania, chuvas indo e vindo e um sol que abriu para coroar a apresentação, também feita para turmas e turmas de pessoinhas e alguns adultos com o riso solto diante das tantas piadas incorporadas naturalmente na dramaturgia (eu era um deles, com direito às crianças olhando para trás para ver quem eram essas pessoas se divertindo tanto). No espetáculo, há um momento breve onde a palhaçaria se desmonta e o título da peça é feito seu chão: Ícaro Negroni, o palhaço Omelete, deixa de interpretar o Ícaro mítico, e o sonho deste Ícaro, como idealizador do espetáculo, permite que ele voe na altura que quiser sem ter suas asas queimadas, convidando seu público a sonhar e realizar.

O Sonho de Ícaro. foto: Victor Natureza
O Sonho de Ícaro. foto: Victor Natureza

No todo, dramaturgia e encenação se desenham totalmente alinhadas entre gags físicas organicamente executadas no correr das cenas, inserção de referências para adultos e para crianças, um grande brincar de inventar uma história mequetrefe, mambembe, toda feita dessas tecnologias do chão da rua, das técnicas circenses, do brilho nos olhos de estar ali. Ícaro se faz pretagonista, e um palhaço preto já carrega inerentemente uma mensagem poderosa – se hoje são muitos, é porque quem veio antes abriu caminhos, e a realidade do mundo segue sendo transformada. Talvez a maior força da obra neste sentido seja essa presença em si e nas sutilezas compostas por isso, como a naturalidade que um preto é filho de um branco na história sendo contada e não é nem necessário inserir comentários. A raça está ali, a vida está ali.

Assistindo ao trabalho, me lembrei de uma poesia de Danez Smith chamada Dinosaurs in the hood (Dinossauros na quebrada, em tradução livre) onde elu propõe um filme com, bem, dinossauros na quebrada. Em certo momento, Smith repete: and nobody kills the black boy e ninguém mata o garoto negro. Pensei, enquanto a história de Ícaro era contada por Ícaro, que a Cia. Alpendre mudaria o final. Que as asas não se derreteriam, que o voo seguiria livre. A obra mantém a queda, e esse Ícaro negro também morre. Mas Ícaro, negro, se levanta e nos lembra: é só o personagem que morre. Ele segue sonhando. Criar é sonho; é criança que olha para a diferença e vê potência.

O trabalho da companhia Azul Celeste (São José do Rio Preto/SP) presente na programação versa sobre maneiras de lidar com a diferença, aqui posta em cena em uma perspectiva racial. Em Tô Fraco, Tô Fraco! a rotina de um galinheiro se transforma com a chegada de uma galinha-d’angola macho. Uma sociedade de iguais – brancos – se depara com o diferente. E o rechaça, de cara, faz troça, diminui. A plateia ri com isso, talvez mais pelo constrangimento do que por concordância. A obra é exemplar na construção do discurso que o preconceito é fruto da ignorância, de uma noção reduzida da diversidade do mundo. Há um grande zelo em sua composição visual, contando com belos figurinos e visagismo, além do prático cenário que se transforma para a jornada final das personagens.

Tô Fraco, Tô Fraco!. foto: Milena Aurea
Tô Fraco, Tô Fraco!. foto: Milena Aurea

Porém, ao lançar o olhar para a estrutura dramatúrgica desenvolvida por Jorge Vermelho, há questões importantes a se discutir. D’Angola só passa a ser aceita por Choca e Garnisé quando se mostra útil para eles – ao salvar a vida dos filhotes. A narrativa de Tô Fraco, Tô Fraco!, nesse sentido, aproxima a obra ao tropo do Magical Negro (negro mágico), muito comum no cinema, onde o personagem negro existe apenas à serviço do branco, de seu desenvolvimento, da solução de seus conflitos, de sua iluminação filosófica ou espiritual.

A diferença não deve ser respeitada apenas quando ela me convém, mas enquanto existência em si. É algo que talvez à fruição infantil passe despercebida, e o trabalho da Azul Celeste não deixa de ser bem-intencionado e até certo ponto efetivo. Na contemporaneidade, é sempre importante estar atento, especialmente quando as tomadas de decisão de uma obra não estão nas mãos de membros das comunidades minorizadas representadas.

Dá pra ensinar, dá pra aprender, dá pra brincar, dá pra assustar, dá pra divertir, dá pra entediar, dá pra animar, dá pra acalmar, dá pra fazer poesia, dá pra muita coisa com as pessoinhas. Em Alie e as Estrelas, uma criança faz carinho num calango. Em Aboio – o auto do boi cansado, que não é infantil mas é classificação livre, uma criança se interessa mais por trocar caretas comigo do que olhar pras ações cênicas. Em Tô Fraco, Tô Fraco! vejo duas crianças se levantarem pra ficar pertinho do que acontece, apoiando os braços e a cabeça no palco. As infâncias são múltiplas, assim como as possibilidades de criar para elas, com elas e a partir delas. É tudo sobre os modos de fazer.

No meio das infâncias, algo de adulto volta do começo do texto pra terminar ele. É o Speedball, que me deu um caminhãozinho e depois pediu de volta. Imaginei que não ia ficar pra mim. Para além de brinquedos e recordações, o que fica da infância? O que dela permanece em nós enquanto constituintes do que nos tornamos? O trabalho da Arcênico habita um campo entre a performance e o teatro; algo do ensaio (como gênero), também. Parece um experimento, uma estrutura com alguns marcos e um jogo de ordem improvisacional entre atuantes, objetos, espaço.

Speedball. foto: Milena Aurea
Speedball. foto: Milena Aurea

A criança interior é soturna; o rosto inicialmente coberto, uma dualidade que se coloca quase que literalmente entre luz e sombra nos figurinos e nas atitudes, que no retirar das máscaras se desloca para um conflito quase da ordem dramática. Infância é trauma? Há um estranho que habita Speedball. Representações, imagens que se constroem, dor, sofrimento, angústias. O brincar contornado por uma sombra – o pai? si próprio? a sociedade? – autoritária, que também parece brincar a seu torto modo. Habitar a infância, trazer a infância, distorcer a infância.

Criar é criança, e criança é muita coisa.

amilton de azevedo é pesquisador e crítico das artes vivas na plataforma ruína acesa (https://ruinaacesa.com.br). Atualmente, é doutorando em artes cênicas na ECA/USP. Mestre em artes da cena, especialista em direção teatral e bacharel em teatro pelo Célia Helena, onde lecionou. Constrói a URGIA/plataforma de ações da palavra. Colabora com diversos festivais, ministra oficinas de crítica e escreveu para a Folha de S. Paulo. Integra a seção brasileira da Associação Internacional de Críticos de Teatro e o júri paulistano do Prêmio Shell de Teatro.