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FIT — Festival Internacional de Teatro
Tudo, Menos Uma Crítica · @tudomenosumacritica · 26 Jul 2026

Ainda do desassossego, do encanto e do encontro

De Risa en Risa, de Aziz Gual, e El Carnaval de los Animales, da La Llave Maestra.

Fernando Pivotto

Por Fernando Pivotto

De Risa in Risa - foto: Ricardo Boni
De Risa in Risa - foto: Ricardo Boni

Ao meu redor, diversas pessoas na platéia do Teatro Municipal Paulo Moura mudam de lugar, irrequietas. Evitam as fileiras da frente, evitam as poltronas que dão pros corredores principais e, por segurança, também tentam não sentar muito ao fundo…

O perigo pode vir de qualquer lugar: não se sabe quem estará na mira do palhaço Aziz Gual, em De Risa en Risa. E se ele decidir fazer alguma cena de interação com a platéia?

O misto de medo e vontade de subir ao palco, somado à expectativa de ver alguém subir ao palco eletriza a plateia mesmo antes do segundo sinal. É uma das coisas mais poderosas dos palhaços, sua capacidade de mobilizar o público mesmo antes de entrarem em cena. Ou, ainda, a capacidade de lançar a pergunta: quando começa a cena? Não é a ebulição da plateia, em seu jogo de trocar de lugares e de se proteger usando o espectador ao lado como escudo humano, um número de palhaço em si mesma?

Ao longo de cerca de uma hora, Gual mantém a plateia jogando: seja gritando e batendo palmas, contando até 10 ou rindo na conclusão de cada número, é nítido que estamos todos no jogo proposto pelo palhaço mexicano, hipnotizados por ele e sua habilidade técnica. Como plateia, também transitamos entre Branco e Augusto - ora ingênuos, encantados, levemente vulneráveis; ora sádicos ao rir do outro, e igualmente vulneráveis.

De Risa in Risa - foto: Ricardo Boni
De Risa in Risa - foto: Ricardo Boni

Vemos, no desenrolar de cada número, a graça das coisas simples e rimos com a mesma ingenuidade com a qual a criança da fileira à minha frente ria para a mãe. Ou, então, rimos ao ver o outro (Gual uma hora, algum membro da plateia em outra) se dando mal. Faz sentido: o palhaço desde sempre serve para que nos vejamos no espelho e percebamos aqueles detalhes que nem sempre queremos ver, aquele lado vulnerável ou aquele lado sardônico que nos fazem falhos e, por isso mesmo, profundamente humanos.

Talvez seja por isso que o número Máscaras me encante tanto: a cada máscara nova que veste, Gual incorpora diversas personas - ou, talvez, diversos estados, diversas paisagens emocionais.

Vejo fúria em determinada máscara, vejo tristeza em outra; outra máscara me lembra um dos ditadores que Chaplin ironizava no século passado, e me faz pensar no quanto evoluímos do final do milênio passado para o início deste - será que algo de fato mudou? Se sim, foi pra melhor?

Claro, nada disso é texto do número Gual, apenas um bom equilíbrio entre subtexto e lacunas: apenas o suficiente para que eu projete, no palco e nas máscaras, aquilo que eu carrego comigo, que me inquieta, que me assusta, que me acalenta e que me diverte. Muito provavelmente, as pessoas ao meu redor têm leituras diferentes sobre o mesmo número, o que faz sentido: parte da força de De Risa En Risa, solo que Gual vem apresentando há vinte anos, surge justamente dos espaços que o artista cria para que a plateia os complete - assim, não apenas atribuindo sentido (e graça) ao espetáculo, mas também observando-se no espelho proposto pela palhaçaria.

Coisa similar faz o grupo chileno La Llave Maestra com El Carnaval de los Animales. Em cena, a suíte composta por Camille Saint-Saëns ganha corpo através de uma miríade de técnicas: teatro de formas animadas, dança, teatro físico, teatro de máscaras e teatro de sombras se unem para trazer ao palco girafas, corsas, baleias, ursos, águas-vivas e um sem-número de animais.

Simples do ponto de vista dramatúrgico - apenas um desfile de bichos-, o espetáculo ganha força na visualidade da encenação e na fisicalidade vigorosa dos performers. É no encontro disso que o espetáculo ganha potência e profundidade: cenas aceleradas são sucedidas por cenas calmas, momentos contemplativos dão lugar a momentos de pura euforia; humor e assombro surgem, cena após cena, no jogo de evocação e encantamento proposto pela Llave Maestra.

É lindo ver um cisne voando, suas asas de organza agitadas pelos performers que, assim, indicam o vento das alturas. É lindo ver o rabo de um peixe se afastando, e dando ao palco uma profundidade oceânica, infinita… que bonito lembrar que o teatro (a arte) tem o poder de mudar o tamanho do teatro (o edifício), aumentando-o e diminuindo-o na metafísica das artes cênicas.

É lindo e desolador ver o tecido que cobre o palco ir se encolhendo e encolhendo, deixando o urso ao centro cada vez mais ilhado, enquanto nós recebemos alertas de tempestades e vendavais em nossos celulares, e vemos as notícias do aquecimento global. Estamos diante do mesmo espelho proposto por Gual, pelo Galpão, pela Mungunzá, pelo Coletivo Negro

El Carnaval de los Animales - foto: Victor Natureza
El Carnaval de los Animales - foto: Victor Natureza

Me lembro daquilo que ouvimos na mesa sobre a curadoria do FIT, logo no início do festival: esta edição desejava encantar e desassossegar o público. E me parece ser uma boa meta: o desassossego para nos lembrar que há muito que ver e que reparar no mundo, como o Galpão disse; o encanto para nos lembrar que tem coisas horríveis no mundo, mas que ele não é feito apenas de horrores e é possível vivê-lo dia a dia, passo a passo, risada a risada.

Me parece que festivais são assim mesmo, um misto de festa e alegria com amargor e dureza: temas difíceis sendo elaborados em cena numa peça, outro espetáculo que se propõe unicamente ao deleite estético, quase sensorial… ambos em pé de igualdade, sem hierarquia de importância. Não se trata de um ou outro, mas sim de um & outro, no exercício de exploração da tessitura das artes cênicas, na eterna pergunta de o que podem as artes cênicas no mundo de hoje?

Bom, essa pergunta segue em aberto. E a ela se seguem outras: O que podem as artes cênicas? O que podem os festivais? O que pode a crítica? O que pode o teatro de grupo? O que pode o encontro? Não se trata de encontrar a resposta delas, mas de mover-se na busca das respostas (no plural), de novas suposições, de novas teorias… de novas curadorias, talvez.

Parece-me que são boas perguntas para o FIT 2027.

Fernando Pivotto é artista da cena, educador e crítico. É membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro e pesquisa formas performativas e relacionais de crítica. Em 2017 criou o perfil Tudo, Menos Uma Crítica, em que testa formatos de escrita reflexiva. Participou de projetos como Crítica Isolada (2021, Sesc Pinheiros), Ponto de Encontro (2023 - 24, Secretaria Municipal de Cultura de SP) e participa do Boteco Crítico (2024 em diante) junto com seus parceiros de Projeto Arquipélago. Desde 2024 conduz a residência para espectadores Estufa, da produtora Corpo Rastreado.