Este texto é travessia e encontro, afet(A)ção e escrita que sai da pele, faz parte da cobertura crítica do FIT 2026 - Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, realizado entre os dias 16 e 25 de Julho de 2026.

Existe um instante, antes de a luz apagar de vez numa sala de teatro, em que a plateia inteira respira junto sem combinar. Ninguém ensaiou aquilo. Esse momento também pode acontecer enquanto o ato “acontece”. É a corpa coletiva se organizando para o desconhecido, um segundo de silêncio que é expectativa pura, é a promessa de que alguma coisa vai atravessar quem está ali. Então, preciso começar esse texto falando e saudando a Cia Mungunzá (e eu vou voltar nesta peça nos próximos textos, aguardem) e não poderia ser de outra forma… notas de trás pra frente, espirais. O instante exato que fui totalmente atravessada pela lembrança do porque eu faço, mexo e ando com esse povo do Teatro. Salve o povo da RUA. Eu chego no FIT pensando nesse instante. Eu chego no FIT pela RUA. E antes de falar dos espetáculos, da curadoria, de números e de mesas de debate, eu quero falar do que sustenta tudo isso: o encontro. Cru, sem enfeite, sem letra maiúscula solene. O encontro como a verdadeira matéria de que o TEATRO é feito. Para além do texto, da coreografia, ou de qualquer conceito que a gente carimbe depois, a posteriori, para dar conta do que está acontecendo.
“Estamos em pleno mar”. O ar vibra com uma densidade que antecede qualquer palavra e antes mesmo da cena se firmar, a corpa já sabe: atravessamos. É noite de estreia do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto. O início do espetáculo instaura esse estado de travessia que não se limita à representação do navio negreiro, mas uma convocação como presença viva, água que não esquece. A cena nos captura. {FÉ}STA - Isso não é morte mãe, isso é passagem.
A trilha sonora, executada ao vivo, é o primeiro território de ancoragem e deslocamento. Sob a direção musical de Melvin Santhana, o som se constrói como matéria dramatúrgica pulsante. Não se trata de acompanhamento, é estrutura, espinha e correnteza. Ao lado de Guilherme Awazu, Jaque da Silva, Mariana Per, Pitee Batelares e Vinícius Ramos, Melvin cria uma paisagem sonora que respira, tensiona e sustenta a cena. Há uma inteligência rítmica que atravessa tudo, como se cada batida fosse também um gesto de reinscrição histórica. O tambor faz a costura e costura fundo.
O circo chega. E quando chega, transmuta o navio. A perna de pau se ergue como extensão de corpos que já aprenderam a sobreviver em desequilíbrio. A palhaçaria convoca o riso como estratégia de existência. OBS: assisti o espetáculo do alto da arquibancada atrás de um senhor que ria muito e me contagiava com sua risada. As acrobacias rasgam o ar com risco real, lembrando que o corpo negro historicamente esteve (e está) em estado de risco constante, mas que também é uma corpa que celebra. O tecido desenha no espaço uma outra possibilidade de voo. O navio negreiro se torna picadeiro e nesse gesto, o horror não é apagado, é reconfigurado como memória ativa. O circo negro emerge como território de invenção, sem romper com a ferida, mas criando a partir delas.
E é isso que um festival propõe uma aglomeração organizada de encontros. Gente que nunca se viu dividindo os encontros, as filas da esperança gente que faz teatro a muito tempo, que começou agora, gente que vê teatro. Espetáculos do Nordeste, do Sul, locais, de Minas Gerais. Isso não é acaso. Isso também é dramaturgia. E é aí que eu quero chegar: um festival também propõe uma dramaturgia, não a dramaturgia de cada peça isoladamente, mas a dramaturgia do conjunto, a arquitetura invisível que decide o que entra, o que fica de fora, o que conversa com o quê, em que ordem a cidade vai ser atravessada pelas obras. Curar é escrever e costurar, tecer uma rede, estabelecer e pensar nos encontros.
O FIT 2026 recebeu 401 propostas. Grupos, coletivos, artistas espalhados pelo Brasil inteiro escreveram, gravaram, sistematizaram um desejo de dizer alguma coisa em público e mandaram para Rio Preto na esperança de serem escutados. Cinco curadores tiveram, nas mãos, a tarefa desumana e necessária de transformar esse volume em programação numa dramaturgia, insisto. Porque escolher entre quatrocentos e um não é uma operação neutra de qualidade, é uma tomada de posição sobre o que o Brasil está fazendo em cena agora, e sobre o que esse festival, especificamente esse, com 57 anos de estrada nas costas, quer dizer sobre o que o Brasil está fazendo.
Cinquenta e sete anos não é pouca coisa para uma mostra de teatro sobreviver neste país. Conversamos com a equipe curatorial - Adriana Macedo, Adriane Gomes, Lucélia Sérgio, Luiz Bertipaglia e Priscila Modanesi - e saí de lá com a sensação nítida de que a intenção é raiz que segue empurrando broto novo, não é museu que se admira sozinho. Falaram em olhar generoso. Falaram em apurar a escuta. Falaram em ir atrás dos extremos do país e não ficar só espremendo o eixo Rio–São Paulo como se o resto do mapa fosse cenário de fundo. Isso me interessa. Um festival que se pretende nacional e não vai atrás do que pulsa fora do sudeste está, na prática, fazendo um festival regional com sotaque de festival nacional. E aqui parece haver um esforço real de romper essa cartografia preguiçosa. Fiquei muito feliz em ver por exemplo trabalhos como ONÃ da Thais, artista tão importante pra cena negra de Minas Gerais, residente em Sete Lagoas, região metropolitana de BH.

Uma das curadoras, grande amiga Lucélia Sérgio, falou de um jeito que eu anotei quase palavra por palavra porque me pareceu o núcleo pulsante de tudo: o teatro pede a crise. Pede o problema, pede o conflito. Não existe cena viva sem atrito e uma curadoria que finge neutralidade, que escolhe pela via da acomodação, está escolhendo, sim, só que está escolhendo o conforto, o que no teatro é quase sempre sinônimo de irrelevância. A pergunta que essa equipe parece ter feito a si mesma, e que eu acho corajosa fazer em voz alta, foi: como provocar a cidade? - a provocação como convite ao DESASSOSSEGO.
Retomando a abertura dessa Gira do Festival. {FÉ}STA. O trabalho se afirma como um território radicalmente demarcado pela negritude. Um circo negro. E essa nomeação não é metáfora vazia: é gesto político, estético e ancestral. Com concepção e direção geral de Ricardo Rodrigues, em parceria dramatúrgica com Renato Ribeiro e Washington Gabriel, o espetáculo enuncia sua matriz afro-diaspórica sem concessões. Música, dança e artes circenses se entrelaçam em uma linguagem que integra saberes.
Isso passa, necessariamente, por disputa de narrativas. Lucélia foi pontal novamente: “um festival de teatro no Brasil de 2026 não pode mais deixar de demarcar território escurecido para a cena negra”. Não como cota decorativa, não como mesa isolada para constar em relatório, mas como presença estrutural na composição da dramaturgia de uma mostra. O mesmo vale para as narrativas afro-indígenas, para o teatro popular, para as dramaturgias LGBTQIAPN+ e todas as suas Travaturgias. E isso é sobre entender que essas narrativas, historicamente empurradas para a margem do palco brasileiro, hoje são o próprio centro de gravidade de onde o teatro nacional mais urgente está saindo. E talvez seja hora de olhar com mais atenção para quem ainda insiste em não entender isso. Agrupar as lutas, ampliar o olhar, criar mesas de encontro entre essas diferentes formas de fazer teatro. É um belo horizonte.
E chego num ponto que considero o mais delicado - e talvez o mais urgente - de toda essa engrenagem: a formação de público. Não é impressão minha, o tema voltou, de formas diferentes, em falas de elenco depois de vários espetáculos, e voltou também no discurso da curadoria. Estamos diante de um momento de reflexão intensa sobre isso, como se o próprio festival estivesse, neste instante, se perguntando em voz alta o que significa formar quem assiste. Formar público é trabalho de décadas, não de uma edição isolada. Mas cada edição, cada escolha curatorial, cada gesto de acolhimento ou de indiferença, empurra esse processo pra frente ou pra trás. E dá pra perceber, olhando de perto, como ao longo desses 57 anos o FIT de Rio Preto vem construindo, tijolo por tijolo, essa narrativa e essa relação com a cidade.
E é curioso como o próprio festival, sem precisar de discurso nenhum, já traz na programação um exemplo do que significa essa disputa de narrativas ganhar corpo - literalmente, corpo de boneco. Falo de "Orixás", do Giramundo, incluída na grade do FIT 2026. A montagem nasceu em 2001, ainda com Alvaro Apocalypse vivo, criador do grupo mineiro ao lado de Terezinha Veloso e Maria Antonieta Martins - Madu. Dezoito anos depois da estreia da peça, veio a decisão de refazer a trilha sonora, e aqui está o gesto que me interessa: as vozes que hoje sustentam a gênese do mundo, da terra e do homem sob a ótica do panteão africano são vozes negras. Sérgio Pererê assina a nova trilha, regravada com Maurício Tizumba, Djonga, Fabiana Cozza e Júlia Tizumba. Não é reposição técnica, é reescrita de autoria. A cosmogonia africana contada, enfim, por quem carrega essas raízes no corpo e na voz.

É bom lembrar que o Giramundo não é grupo de passagem nesse debate. São mais de cinquenta anos de trajetória (quase a idade do próprio FIT) dedicados a um teatro de bonecos que trata a dramaturgia com o rigor que ela merece, sem infantilizar a plateia nem o ofício. O acervo do grupo, guardado hoje no Museu Giramundo, soma cerca de 1500 bonecos construídos ao longo de 38 montagens, com as técnicas mais diversas de manipulação e construção de títeres. Analisar a competência de um propositor desse porte é quase perder tempo com o óbvio: a excelência ali é dado de partida, não hipótese a ser testada. O que vale a pena observar, sim, é a escolha política por trás da atualização - porque um grupo dessa tradição também podia ter optado pela comodidade de manter a montagem intacta, museificada, e não escolheu. Preferiu deixar a peça respirar o tempo presente. E é exatamente esse tipo de gesto - tradição que aceita ser revisitada, e não apenas preservada - que dá liga entre o que a curadoria promete no discurso e o que efetivamente acontece quando a luz apaga e o boneco entra em cena.
Talvez uma imagem se cria em minha cabeça ao fechar essas primeiras notas: um festival é uma dramaturgia viva, escrita a várias mãos, em tempo real, pela cidade que assiste, pelos artistas que chegam, pelos curadores que curam e pelos silêncios que antecedem cada luz que apaga. E talvez seja ali, no boteco crítico e nos botecos da vida, nos rolês depois da peça, na mesa que se forma sem combinar, no comentário solto enquanto alguém ainda procura a saída do teatro que a gente descobre, de fato, se o que viu no palco atravessou ou só passou de raspão.

Fica a pergunta que não sei responder ainda, e talvez nem devesse responder tão cedo. Fica, na verdade, um punhado de perguntas, dessas que cabem melhor numa roda de boteco do que num parágrafo de fechamento. Essa dramaturgia do encontro que o FIT 2026 propõe, essa trama invisível que junta gente, obra e cidade numa mesma semana - ela se sustenta depois que a luz apaga, ou se dissolve assim que todo mundo volta pra rotina? O que é, afinal, um encontro genuíno dentro de um festival? é o espetáculo em si, ou é o que a gente faz com ele depois, na conversa que se esticam? Quantas dessas trocas de ideia pós-peça a gente carrega de verdade pra vida, e quantas se perdem no caminho de volta pra casa? A provocação vai mesmo virar desassossego? A formação de público vai mesmo virar presença - corpo que volta, que se apropria, que passa a considerar aquele teatro como seu? o que fica de um festival depois que ele acaba — fica obra, fica memória, ou fica sobretudo o jeito como a gente aprendeu, ali, a estar junto? ENCONTRO.
Não tenho essas respostas. E talvez essa seja a única honestidade possível num texto escrito ainda dentro da travessia, sem a distância confortável de quem já viu o festival inteiro passar. Eu estarei lá, atravessada, prestando atenção em cada aresta, cada silêncio antes da luz apagar de novo.
Que continuem os encontros. Deixa a Gira Girar!

