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Um Canto de Desesperança para o Presente


Há algo de urgente, propositalmente precário, gritado em O Canto das Mulheres do Asfalto, da Cia. Les Commediens Tropicales. Para que parir filhos que podem ser exterminados com as cruéis armas do presente, defendem em seus discursos as figuras da peça. Não há esperança para a humanidade e elas dizem basta de ilusões de futuro. Não colocar no mundo novos rebentos é o veredito. "Nossa lida deixou de ser vida. Nosso corpo é máquina imperfeita, eliminada sem piedade”, vociferam essas criaturas. A insensibilidade feriu a terra e a decisão está tomada. Mulheres, mães e filhas, santas, prostitutas, velhas e moças, não haverá outra geração. 

Com direção de Georgette Fadel e dramaturgia de Carlos Canhameiro, a montagem, encenada em cima das árvores, troncos e na rua fala dos motivos de ameaçar pôr fim à humanidade. A decisão radical encontra razões em qualquer parte: no Congresso Nacional, nas repartições públicas, nos lugares que deveriam ser de justiça, nas ruas. O desrespeito cotidiano, o ultraje às mulheres, o feminicídio esfregam motivos na nossa cara. É experiência dolorida que suscita a revolta. “Hoje condenamos à cadeira elétrica a esperança a humanidade o futuro”
O espetáculo foi apresentado no Festival Internacional de São José do Rio Preto, em duas sessões, na área externa do Swift. Com cenas itinerantes nesse terreiro, os atores - Cris Rocha, Michele Navarro, Paula Carrara, Paula Serra, André Capuano e Weber Fonseca - se revezaram numa enxurrada de frases contundentes e de efeito em prosa e poesia. Essas vozes traduzem a desesperança e exigem ser ouvidas. 

"Hoje será o dia da precisão das palavras O coração não foi ouvido Há séculos implora Foi calado Emudecido Arrancado Ignorado Então as palavras hoje são vísceras expostas como cachorro morto sobre o asfalto”, diz o texto de  Canhameiro. Sem medo das palavras e de seus significados elas vociferam contra a sociedade machista contemporânea e anunciam o poder de provocar a tragédia, com a condenação do futuro. 

Os momentos mais de risco são quando os atores desafiam o poder, simbolizado pelos carros potentes que passam apressados. Eles encaram o perigo e dialogam com aqueles veículos, com a pressa, com o medo da morte. A cena cresce e injeta mais adrenalina com aquelas ações do que todas palavras convocando Lilith ou denunciando extermínio de mulheres e seus filhos. Ali, no asfalto próximo à represa, em que as atrizes atiçam as mulheres a encarar o gozo de viver sem temor, a peça explode de sentidos de tudo que não pode mais calar.


Por Ivana Moura (PE)
Jornalista, crítica de teatro, escritora e produtora. Idealizadora e editora do blog Satisfeita, Yolanda? Possui mestrado em letras e especialização em jornalismo e crítica cultural. Foi repórter e editora de cultura do Diário de Pernambuco (1989-2013).


Fotos: Jorge Etecheber