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Jornada de Crescimento e Aceitação


Ser criança é algo complexo e cheio de contradições, às vezes despercebidas pelos adultos. Muito longe de ser um tempo chapado ou apaziguado. É um mérito do espetáculo Berenices acender essas questões, de forma lúdica e valorizando a sensibilidade dos pequenos, com ações simples e silêncios ensurdecedores. O ato de crescer está ligado a expandir limites. E dói. Para caber mais tolerância, mais amor, mais compreensão, Berenice, a protagonista da peça, precisa se ampliar interna e externamente; administrar humores, vivenciar explosões. A montagem sem falas, traduz em gestos, mímicas, máscaras e bonecos a guerra de sentimentos da protagonista. Centro do seu mundo, a menina se vê ameaçada com a chegada de um irmãozinho que lhe rouba a atenção de todos, principalmente da mãe.

O Grupo Morpheus Teatro, de São Paulo, aborda esse processo no espetáculo Berenices, no plural para mostrar que várias criaturinhas habitam no corpo da menina. E dá forma a sentimentos e sensações com animações de vários tamanhos, atuação dos atores; a luz que amplia, reduz ou distorce e uma trilha que privilegia sons onomatopaicos.

O texto e direção geral de Berenices são de Verônica Gerchman. A direção de bonecos e máscaras são assinadas por João Araújo. Os dois estão em cena ao lado de Cassia Domingues, Daniela Boni e Zéantonio do Carmmo.

É muito precisa a técnica de manipulação dos bonecos, a articulação de pernas e braços e outras partes do corpo. Os movimentos de acordar junto com os manipuladores, espreguiçar são bem cativantes incluindo os operadores como personagens já no início da encenação.

A montagem apesenta a protagonista, sua rotina e a alegre curiosidade do mundo. Depois o seu território externo com espaço para seus pais. Para depois expor os conflitos de Berenice.
Além da manipulação direta com bonecos de médio e pequeno porte, o  grupo Morpheus explora a atuação dos atores portando máscaras para mostrar os hábitos da família. Nessa parte são exibidos pequenos desempenhos, como a chegada do pai em casa, a mãe grávida que cuida dos afazeres e disciplina o marido.

Esses quadros com a utilização de mímica promovem momentos engraçados e de apelo ao imaginário já bem explorado pelos programas de TV e desenhos animados. Mas pareceram longos antes de chegar ao cerne do crescimento.

Mas é bom destacar que são interessantes essas alternâncias de técnicas. E muito bonita a solução da sombra/projeção para o nascimento do menino.

O treinamento vital da protagonista ganha potência com a disputa de afeto entre irmãos. Para materializar os sentimentos de Berenice, surgem bonecas de várias cores, como a Quebratudo, que representa a raiva, com trajes vermelhos. Outras manifestam o medo, o egoísta ou o seu lado generoso. É uma aventura lidar com essas pulsões, que prosseguem pelo resto da vida.

A corporificação desses sentimentos em esculturas de vários tamanhos, que crescem ou diminuem com a gestualidade, a iluminação e músicas são trunfos poéticos da montagem. As técnicas desse teatro animado passeia por um universo mágico, que desafiam leis de gravidade e subvertem proporcionalidades. Convivem o pequeno e o grande, a atuação dos intérpretes em cenas oníricas e de muita delicadeza.
A peça traz norteadores de reflexões para adultos e crianças. Em espiral de aprendizado. Estamos todos crescendo a cada dia. É um desafio constante. E pode ser alegre como a gargalhada de Berenice, já compartilhando o espaço de afeto com o irmão. E entregue aos próximos estímulos da vida, como na cena do balanço em que a fita de seus cabelos voa.

Por Ivana Moura (PE)
Jornalista, crítica de teatro, escritora e produtora cultural. Idealizadora e editora do blog Satisfeita, Yolanda?. Integra a DocumentaCena - Plataforma de Crítica e a Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT-IACT (aict-iatc.org), filiada à UNESCO.


Fotos: Ricardo Boni