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Graneleiro - Encontros, Artes e Ideias


Durante o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, com sua intensa programação e uma pauta importante de ações formativas, que agregou debates, residências artísticas, painel crítico, conversa dos artistas com o público e uma pequena mostra da produção teatral da cidade, entre outras atividades, cabe destacar a instauração de um espaço de convivência criado para integrar artistas de outras áreas, como música e literatura, além dos participantes do festival e o público em geral. 

Situado no centro da cidade, o Graneleiro cumpre uma importante função de celebração, de troca e de convívio afetivo, afirmando ainda mais o caráter festivo do evento. Já no primeiro dia, o ator e diretor Luiz Carlos Vasconcelos, diretor do espetáculo Suassuna – o auto do reino do sol, que fez a abertura do festival, participou com uma intervenção no Microfone Aberto. Atores e diretores das companhias e dos grupos convidados também passaram pelo palco para cantar, declamar poemas e fazer intervenções musicais todas as noites. 

Em específico, no sábado, dia oito, o músico Renato Godá arrebatou o público com suas baladas românticas influenciadas pelo folk americano. O compositor e cantor, que é tido como um dos mais criativos de sua geração, conversou com o público, cantou e revelou sua aproximação com o teatro. O público retribuiu e entrou na pegada intimista proposta pelo artista. Daí em diante, todas as noites, o Graneleiro recebeu uma diversidade de expressões artísticas marcada pela pluralidade e pelo postulado político. 

Destaco, nesse contexto, uma das noites que mais me impressionou pela diversidade de linguagem, de posicionamento político, ético e estético. Trata-se da noite dos saraus, uma tradição em São José do Rio Preto. O evento colocou no mesmo palco o Sarau das Janelas, o Sarau Marginal, o Sarau das Pretas e o Sarau Urbano, coletivos híbridos que se aventuram na música, na poesia e no protesto. 

Há, pelo pouco que pude pesquisar e pelo que vi, uma rivalidade entre eles, mas essa rivalidade se apresenta na forma de pensar e de fazer o que fazem. Seria impossível, nesse breve texto, explorar as nuances de cada grupo, por muitos motivos: não conheço as raízes das discordâncias, sou um visitante de primeira viagem na cidade e não disponho de real vivência para assumir um papel de analista das intrigas, diatribes e quizílias estéticas que predominam no pedaço. 

No entanto, o que vi no palco demonstra que há muita afinidade entre todos. Lutam pela arte, pelo direito de expressão, pela liberdade sexual e pelo direito de existir, e, sobretudo, de falar sobre esse existir. São contra a misoginia, a homofobia, o preconceito racial e máquina social opressora. 

Ainda que distante do contexto geral, penso que a aproximação dos quatro coletivos no mesmo palco foi uma escolha acertada e bem pensada da organização do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, pois gerou uma possibilidade de encontro, de compartilhamento e de reconhecimento. 

Considero importante registrar que são poucos os festivais que atravessam essa perspectiva de integrar à sua programação as artes e as ideias de fazedores de outras linguagens. Talvez essa seja a grande defesa a ser feita, porque além de um lugar de encontro entre os participantes e convidados do Festival Internacional de São José do Rio Preto, o Graneleiro se tornou um espaço que chama a cidade para dentro da cidade, para olhar seu caleidoscópio artístico e faz uma aproximação de suas margens, de suas bordas.

Por Marco Vasques (SC)
Poeta, contista e crítico de teatro. Mestre em teatro pelo programa de pós-graduação da Udesc, com pesquisa em Flávio de Carvalho. É doutorando em teatro pelo mesmo programa. É editor do Caixa de Pont[o] - jornal brasileiro de teatro e do jornal Ô Catarina. Integra a Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT-IACT, filiada à Unesco.


Fotos: Ferdinando Ramos e Jorge Etecheber