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Cortejo Cênico de Luta pela Terra


O desaparecimento de uma cidade; e com ela a memória, o fluxo de afeto de sua gente, os sonhos e o futuro; mexe com a imaginação para além da cena. Desenterra traços do impacto ambiental, social e cultural. O chamdo progresso chega para acabar com ruas e praças, casas e suas alegrias, igreja e sua fé criticado no espetáculo de rua Terra Abaixo, Rio Acima.  A pesquisa da Cia. Cênica, de São José do Rio Preto (SP) sobre a construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira (SP), (a terceira maior usina do país, situada no Rio Paraná, concluída em 1978), resultou na montagem. Muitas histórias estão atreladas a esse acontecimento, como a submersão da cidade de Rubinéia, a velha barrageira. Terra Abaixo, Rio Acima é um dos três espetáculos da Cena Rio Preto, que compõe a programação do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto.

A trupe dirigido por Fagner Rodrigues recriou esse represamento, cruzou narrativas, expandiu personagens. E criou conexões da submersão de Rubnéia com o apagamento de histórias e memórias de figuras que se posicionam contra regimes e sistemas totalitários. Ao mesmo tempo, a peça valoriza a cultura popular e seus saberes, numa perspectiva provocadora.

A força do personagem Aparecidão concentra-se na revolta, nesse movimento contra a establishment. A figura foi inspirada no líder religioso Aparecido Galdino Jacintho, que benzia pessoas e animais, e dizia receber mensagens espirituais.  Ele organizou um pequeno exército da Força Divina, na intenção de barrar sumiço da cidade com a hidrelétrica.  Esse homem real foi preso junto a outros camponeses, torturado no Dops e Doi-Codi, em São Paulo, e enclausurado por sete anos no manicômio judiciário de Franco da Rocha (SP).

Os personagens de Terra Abaixo, Rio Acima são pobres e feios e sujos (sob a ótica do capitalismo) que se insurgem contra o progresso. Cada um tem sua história fantástica de sobrevivência e de crença, costuradas na linguagem do realismo mágico. 

Aqueles seres que sonham com a felicidade em suas vidas simples – casar, ter filhos, ser reconhecido socialmente, viver em harmonia, exercer seu trabalho – são desafiados por proprietários de terras e seus capatazes. Salta beleza dessas criaturas precárias da ficção em suas existências ameaçadas. 

Ao escolher o episódio da hidrelétrica e do sumiço de uma cidade como inspiração para o espetáculo Terra Abaixo, Rio Acima, a  Cia. Cênica discute a luta do homem pelo direito à terra, toca em questões que historicamente geram combates e mortes pelo Brasil à fora, da terra e propriedade. 

A dramaturgia de Graziela Delalibera e Fagner Rodrigues trafegam por potências da guerra, mas que abrem espaço para energia da festa na composição dos papeis e dos confrontos carregados de humor dessas figuras que andam e se revoltam e tem fé, mesmo que lunática, na própria atuação.  Os figurinos, de Adbailson Cuba, os adereços e elementos cenográficos, de Laura de Paula Barbeiro, traduzem personagens e projetam o território da ação. 

A música, executada ao vivo funciona como elemento dramatúrgico, a marcar e subverter o andamento do espetáculo. E o elenco afinado e cativante é formado por Cássia Heleno, Clara Tremura, Diego Guirado, Fabiano Amigucci, Glauco Garcia, Márcia Morelli e Simone Moerdaui.

No cortejo cênico perdemos falas e gestos pelo caminho. Mas isso também faz parte da representação de rua. Traz a potência do encontro da arte com a cidade, o desafio da conquista do público passante. Ocupar esse espaço urbano para falar de uma cidade que desapareceu por escolhas políticas sem a consulta à população, é um posicionamento político. E ganha escala nesses tempos de grandes arbitrariedades. Terra Abaixo, Rio Acima convocar para si novos olhares, atentos e cúmplices de figuras que tem a seiva de fazer a revolução.

Por Ivana Moura (PE)
Jornalista, crítica de teatro, escritora e produtora. Idealizadora e editora do blog Satisfeita, Yolanda? Possui mestrado em letras e especialização em jornalismo e crítica cultural. Foi repórter e editora de cultura do Diário de Pernambuco (1989-2013).


Fotos: Ferdinando Ramos