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Cartografias Imaginárias de Alex Cassal


Um mapa, três animais de brinquedo, uma manta da avó, três maçãs, 11 livros, um celular, um tapete, um conjunto de luzinhas chinesas de Natal, dois bancos, uma cadeira, uma mesa, um ukulele (instrumento musical de cordas), três pessoas. Ao todo são contabilizados 55 objetos em cena para falar dos 55 lugares esboçados pelo escritor Ítalo Calvino (1923-1985), no livro As Cidades Invisíveis. Com esses artefatos, alguma imaginação e a cumplicidade da plateia, o encenador brasileiro Alex Cassal (do grupo Foguetes Maravilha e da peça Ninguém Falou que Seria Fácil) armou uma improvável viagem por destinos longínquos ou lugares próximos ao teatro Sesc de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, Brasil, Planeta Terra. 

As Cidades Invisíveis, da companhia lisboeta Má-Criação, comportam três viajantes, interpretados por Alfredo Martins, Paula Diogo e Caruline Maria. Eles se desdobram nas figuras inventadas por Calvino, mas se expõem como atores que desnudam ao público o entrelaçamento e a interpenetração do processo criativo. Aproximando da riqueza do livro, que não se deixa aprisionar em gênero, a encenação exercita as fronteiras fluidas do teatro desses tempos. 
As cartografias imaginárias de Alex Cassal não são exatamente de As Cidades Invisíveis de Italo Calvino. A prosa do escritor ítalo-cubano está carregada da potência dos antigos construtores de fábulas, a injetar prazer no ouvinte e no leitor, a partir dos diálogos fantásticos entre Kublai Khan e Marco Polo. A peça não se arrisca em ser uma representação dessa obra. 

O espetáculo vale-se do livro como trampolim para um mergulho em jogos de linguagem a cavoucar a edificação do sujeito cidadão, em pontos de vista diante da polis. O autor do espetáculo ergue espaços virtuais, ambiguidades e paradoxos numa peleja de vozes e imagens. Cassal fabrica heterotopias, tensionando juízos de que cidades – impérios ou pessoas – estão em eterno movimento de ascensão e queda, no processo dialético de fluxo e refluxo, esplendor e ruínas, continuidade e ruptura.

Para situar aquelas três figuras e fornecer ligações entre elas e o espaço, os atores fazem perguntas sobre si mesmos ao público. Quem é o mais tímido? Quem é estrangeiro? Qual de nós é preto? Quem deles usa as mesmas meias três vezes seguidas? 

Dois deles, já sabemos pelo sotaque, são portugueses. A outra atriz é brasileira, de Campina Grande, na Paraíba, ela nos informa. E com interrogações que às vezes confundem mais que esclarecem, o trio municia com outras pistas. São dados para a composição de um mapa de viagem e de cidades, encetado do flanco pessoal e íntimo do trio.

E estabelecem um jogo com a plateia ao entabular mundos irreais, linkando os que estão no teatro com os de fora ou questões que incluem pessoas ou cidades distantes, numa justaposição arbitrária da imaginação ou referências de cada um. 

Os criadores-intérpretes percorrem questionamentos do que é uma cidade, aproximando-se do jogo da existência do espaço; local de troca, formação de indivíduos e comunidades, as mudanças dos ambientes e desejos, territórios e invasões.

O texto de Calvino é um poema de amor às cidades, complexo, no impulso de suprir em caleidoscópio várias percepções, impressões e discursos sobre o ambiente e a dificuldade de vivenciar esses lugares. Calvino recria os personagens históricos Kublai Khan, imperador tártaro que em 1271 fundou a dinastia Yuan, e Marco Polo, viajante veneziano. Cada um deles porta aspectos de caráteres humanos opostos diante da vida. De um lado o ancião, sedentário, racional e rei; e do outro o jovem, desbravador, fabulador e emocional. Na peça eles ocupam lugar secundário enquanto personagens.  

Os guias-atores conduzem por lugares estranhos. Da geografia do espaço à geografia do sentimento. Enquanto se aproximam entre si e nos acercam, eles formulam e quebram regras, levam para a cena as pulsações de habitantes de urbes com todas as contradições experimentadas no cotidiano.

Em Tristes Trópicos, Claude Lévi-Strauss defende que a cidade é, a um só tempo, objeto da natureza e sujeito de cultura; indivíduo e grupo; vivida e sonhada: a coisa humana por excelência.

Para além desse movimento continuo, a cidade também abarca uma multiplicidade de visões, em que indivíduos atuam e a percebem a partir de seu ponto de vista e local que ocupa. Como diz Marco Polo, ao retratar a cidade de Zemude “é o humor de quem olha que dá forma à cidade”. 

Nas divagações e explorações desse trio nos deparamos com problematizações sobre pertencimentos e fronteiras, composições e ajuntamentos, encontros e amores líquidos, descobertas e o sentido de viagem na Terra.

Por Ivana Moura
Jornalista, crítica de teatro, escritora e produtora cultural. Idealizadora e editora do blog Satisfeita, Yolanda?. Integra a DocumentaCena - Plataforma de Crítica e a Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT-IACT (aict-iatc.org), filiada à UNESCO.

Fotos: Ferdinando Ramos