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A Dançar com as Nossas Armas


And So you See..., solo do bailarino Albert Khoza dirigido pela coreógrafa Robyn Orlin, ambos sul-africanos, é um espetáculo que resiste às categorias. Embora esteja em um festival que tem teatro no nome e seja dirigido por uma coreógrafa, não há elementos facilmente reconhecíveis do teatro e da dança. Inicio esse texto com essa observação porque a peça está sendo apresentada dentro do contexto específico de um festival e, até agora, a maior parte das obras que compõem a programação são facilmente reconhecíveis como teatro. Com exceções, naturalmente, mas não muito radicais. Assim And So you See... chega na programação como um elemento desestabilizador. 

A dramaturgia do espetáculo, que não obedece a uma lógica discursiva nem causal, põe em jogo acúmulos e superposições de imagens que não precisam ser traduzidas em sentidos. A partir de uma passagem bem humorada por alusões aos pecados capitais, com referências à música clássica, a cantoras negras como Billie Holiday e Nina Simone e à cultura urbana contemporânea, como na conversa entre Khosa e um gif do atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, o espetáculo vai costurando a sua política. 

A atitude crítica que está no cerne da obra se dá principalmente no corpo que se coloca, que se expõe, que fala com a voz, o peso, a cor, as origens, no corpo de um homem negro, gay, sul-africano, cuja forma ultrapassa as medidas tomadas como padrão em uma sociedade homofóbica, racista, eurocêntrica e gordofóbica. São muitas as violências e as formas de dominação que o espetáculo critica sem necessariamente nomear. Mas a atitude desse corpo, que não se vitimiza, é afirmativa. A postura descolonizadora não é aquela que ataca e tenta anular ou diminuir o que é do colonizador, mas a que encontra suas próprias epistemologias. O recado para Putin não precisa ser endereçado exclusivamente a ele. "É melhor usar as nossas armas para dançar do que para matar" é o que diz Khoza enquanto dança e manuseia objetos parecidos com chicotes.

É possível fazermos uma ligação entre a imagem de Khosa no placo com três espectadoras brancas limpando seu corpo e a imagem de Denise Assunção no papel de Madame entre duas atrizes brancas na montagem do diretor polonês Radoslaw Rychcik para As criadas de Jean Genet, que esteve na programação do festival. Não só por vermos nas duas peças mulheres brancas servindo uma pessoa negra, mas pela acidez com que Khosa e Denise expressam, em seus corpos esplêndidos de alta voltagem performativa, o absurdo patético da cultura das madames que perpetuam relações coloniais. Assim como Denise desestabiliza e incendeia a cena de As criadas, transmutando a peça, colocando-a em outra dimensão de potência e relevância, And So you See... desestabiliza e incendeia o repertório do festival. Pena que está chegando ao fim. A impressão que fica com And So you See... é que agora um outro festival poderia começar, que outra noção de arte se abriu.

E nós, espectadores, como ficamos? Como podemos descolonizar os nossos corpos? Quando vamos aprender a dançar com as nossas armas?

Por Daniele Avila Small (RJ) 
Doutoranda em Artes Cênicas pela UNIRIO, crítica, dramaturga e diretora de teatro. Idealizadora e editora da revista eletrônica Questão de Crítica, integrante do coletivo Complexo Duplo e da DocumentaCena – Plataforma de Crítica.

Fotos: Danilo Vieira